Transtornos de Aprendizagem – Como Identificar e Tratar

O transtorno do déficit de atenção e hiperatividade, também conhecido pela sigla TDAH normalmente é detectado quando a criança está em idade escolar, iniciando o seu aprendizado formal, ou seja, a partir dos 7 anos. Acredita-se que a frequência de TDAH em crianças em idade escolar seja de 5%. Obviamente, existem casos em que este diagnóstico pode ser suspeitado mais precocemente, ainda na fase pré-escolar, embora isto seja mais difícil e passe muitas vezes despercebido. Contudo, não podemos esquecer também dos adultos com TDAH que não foram diagnosticados e tratados na infância e sofrem diariamente com dificuldade para prestar atenção (“memória ruim”), impulsividade e inquietude (“hiperativos”).

Em relação à sua fisiopatologia, o TDAH ocorre por um problema no funcionamento de um circuito que utiliza a dopamina, uma substância produzida no cérebro (neurotransmissor) que tem a função de estimular determinadas áreas, por exemplo, regiões cerebrais relacionadas com a atenção, com a capacidade de resolver problemas, planejamento e estratégia. Esta é a área que mais se desenvolveu no cérebro humano, quando nos comparamos com ancestrais primatas, e se localiza acima dos olhos, atrás do osso frontal, em uma região que conhecemos por córtex pré-frontal.

Os indivíduos com TDAH provavelmente têm uma predisposição genética (ainda não bem conhecida) e quando submetidos a fatores externos desenvolveriam o TDAH. Dentre as influências externas destacam-se tabagismo e etilismo antes e durante a gravidez, baixo peso ao nascer e neuroinfecções após o nascimento.

Sobre os pacientes que desenvolvem TDAH na vida adulta é importante ficar claro que sendo uma patologia do neurodesenvolvimento esta doença deve, obrigatoriamente, iniciar na infância ou, no máximo, adolescência (12 anos). Ainda hoje, de acordo com os critérios diagnósticos do DSM-IV, só é possível fazer o diagnóstico de TDAH se o indivíduo iniciou os sintomas a partir dos 7 anos de idade, independente da idade que tem hoje, seja, 20, 30 ou 40 anos. A nova proposta de diagnóstico do DSM-V, ainda não vigente, deverá constar com o ponto de corte de 12 anos de idade para início dos sintomas.

Podemos separa algumas diferenças entre os sintomas do TDAH em crianças e adultos

Nas crianças o TDAH divide-se em 2 subgrupos: desatento e hiperativo/impulsivo. No subgrupo desatenção a criança não presta atenção em sala de aula, tira notas ruins, não aprende, não acompanha as conversas dos colegas, pais e professores, enquanto no subgrupo hiperatividade/impulsividade não espera sua vez, é muito inquieta, não permanece no mesmo lugar, movimenta muito as pernas quando sentada.

No adultos, a maioria absoluta dos casos são apenas do subgrupo desatento. A principal queixa destes adultos quando procuram o médico é, sem dúvidas, quanto à memória. Reclamam que não guardam informações, são rotulados equivocadamente de “preguiçosos”. Além disto, têm dificuldade para organizar seu ambiente de trabalho e vida pessoal, assim como priorizar tarefas mais importantes. Finalmente, podem apresentar dificuldade para resolver problemas corriqueiros como planejar uma viagem de lazer ou organizar uma apresentação de trabalho.

O fato de o TDAH ser menos diagnosticado em adultos tem algumas explicações. Uma delas é educação médica, ou seja, falta de um maior treinamento ou preparo para “entender” que um adulto jovem com queixa de “esquecimento” poderá ter, entre diferentes diagnósticos diferenciais, TDAH. Além disto, a própria população acredita que TDAH só existe na infância e não percebe que este diagnóstico poderia ser feito, pela primeira vez, na idade adulta.  Entretanto é preciso ter cuidado porque nem toda pessoa “agitada” ou “desatenta” necessariamente tem TDAH. Aliás, esta pessoa pode não ter problema algum.

Quando se faz o diagnóstico em adultos de TDAH é preciso se certificar de uma série de elementos que apenas um médico poderá elucidar. Por exemplo, doenças associadas como problemas na tireoide, depressão, ansiedade, transtornos do sono, autismo, encefalopatias crônicas não evolutivas, uso de drogas ilícitas ou lícitas, outros transtornos do neurodesenvolvimento, além de alterações que podem existir em exames de sangue, urina, imagem e neurofisiologia. Finalmente, é preciso entender que o problema referido (desatenção e agitação) precisa ser persistente e interferir de maneira significativa com a vida pessoal/profissional, não se justificando por outras condições. Algumas escalas de auto-avaliação em adultos podem auxiliar na triagem. Recomendo, neste caso, uma visita ao site da Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA) no endereço eletrônico www.tdah.org.br.

Vale também lembrar que existe uma associação muito comum entre TDAH e outras doenças neuropsiquiátricas. Entre elas, depressão e ansiedade, transtornos do sono e abuso de drogas lícitas e ilícitas. Transtornos de linguagem e aprendizado como a dislexia podem comprometer até 1/3 das crianças com TDAH, assim como problemas de sono, muito frequentes nesta população.

Basicamente existem 2 linhas de tratamento, que são complementares. A primeira linha envolve uma abordagem psicológica e psicopedagógica e a segunda envolve tratamento com remédios, normalmente estimulantes do sistema nervoso central. As medicações usadas para o tratamento do TDAH devem ser avaliadas pelo médico que as prescreve. Existem diversos efeitos adversos conhecidos e que devem ser discutidos previamente. Dentre os mais comuns: irritabilidade, insônia, tremores, crises convulsivas. A posologia (forma de administração) e dose será tratada individualmente, conforme cada caso.

O TDAH leva a sérios problemas não somente do ponto de vista cognitivo, com desempenho escolar ruim, mas também nas relações sociais e na vida afetiva da criança ou adulto acometido. Como o tratamento, farmacológico e não-farmacológico, tem um impacto significativo na qualidade de vida destes pacientes, vejo que o passo principal é suspeitar do diagnóstico e referenciar o quanto antes a um médico que possa avaliar o caso e fazer as orientações cabíveis. Os pacientes tratados com êxito têm condição de exercer plenamente suas capacidades psicomotoras.

Epilepsia – Diagnóstico e Tratamento

Quem não conhece alguém ou presenciou consigo mesmo(a) uma situação de desmaio ou quase desmaio? Do ponto de vista neurológico, o desmaio é uma perda completa da consciência, normalmente de caráter transitório. Entretanto, nem sempre estes desmaios estão relacionados com problemas de pressão arterial, como a maioria das pessoas pensa.

Uma das causas de desmaios, por exemplo, pode ser a epilepsia, que se manifesta apenas com perda da consciência associado ou não a “abalos motores”. Entretanto, causas ainda mais comuns de perda da consciência incluem diminuição do açúcar no sangue, queda da pressão arterial e arritmias cardíacas.

Outra causa de desmaio menos comum pode estar relacionada a um problema sério de sono, muitas vezes não diagnosticado, que é a narcolepsia. Neste caso, os “ataques de sono” podem simular desmaios também.

Para os pacientes, é importante observar a situação na qual o desmaio ocorreu. Assim, devemos considerar se foi um desmaio após um período de jejum prolongado, durante o ato de urinar, após um esforço físico, após mudar repentinamente de uma posição (deitado) para outra (de pé), se ocorreu palpitação no tórax ou outro elemento incomum.

Em geral os desmaios são investigados pelo clínico, cardiologista e/ou neurologista e os exames dependerão das causas, podendo incluir testes para o coração (eletrocardiograma, ecocardiograma, teste da mesa inclinada), exames neurológicos (neuroimagem e eletroencefalograma) e rotina laboratorial (glicemia, hemograma, eletrólitos, função renal, hepática e tireoidiana).

Em síntese, os desmaios podem significar muito mais do que uma queda da pressão arterial e envolvem problemas clínicos, cardíacos e, logicamente, neurológicos. A correta investigação e terapêutica, por sua, vez, dependerão de uma criteriosa investigação dessas etiologias.

O DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO DAS EPILEPSIAS

Muitas pessoas já presenciaram um indivíduo tendo crises epilépticas, mas poucos sabem exatamente o que é epilepsia e como tratá-la. A epilepsia é um problema neurológico comum caracterizado clinicamente pela presença de crises convulsivas de repetição, nas quais o indivíduo pode ou não perder a consciência e se contorcer. Afeta desde recém-nascidos até idosos e tem um amplo diagnóstico diferencial.

A epilepsia manifesta-se pelas crises convulsivas que, de um modo geral, podem ser classificadas em crises parciais simples (não se perde a consciência e o indivíduo tem algum sinal/sintoma neurológico focal e transitório, por exemplo, pequenos abalos musculares da face e membro superior de um lado do corpo), crises parciais complexas (há um comprometimento da consciência e não perda total dela e são frequentes os chamados automatismos motores, em que o indivíduo estala os lábios, pisca os olhos várias vezes, movimenta uma das mãos sem propósito) e as crises generalizadas (nas quais a consciência é perdida transitoriamente e ocorrem contraturas seguidas de abalos musculares em todo corpo).

Para entendermos como uma crise epilptica ocorre, precisamos comparar o cérebro a um verdadeiro circuito elétrico, em harmonia, onde os neurônios (as células do cérebro) se comunicam uns com os outros transmitindo impulsos nervosos, ou literalmente corrente elétrica. Quando esta harmonia é perdida e um grupo de neurônios passa a “disparar” de maneira síncrona, diferente de seus vizinhos, pode haver uma crise convulsiva ou uma descarga epileptiforme.

 

Em recém-nascidos, problemas que ocorreram na gestação ou no parto, como malformações do sistema nervoso central e doenças metabólicas, são causas frequentes de epilepsias. Em crianças de 5 meses a 5 anos são comuns as chamadas crises febris, que normalmente não persistem após este período, e acontecem porque o aumento da temperatura em um cérebro ainda imaturo pode ser prejudicial. Em adultos, a principal causa de crise convulsiva é a chamada epilepsia do lobo temporal e, em idosos, crises convulsivas de início recente são normalmente secundárias a acidentes vasculares ou tumor.

O tratamento da epilepsia depende, primeiramente, de um diagnóstico correto e, a partir daí, orientações para prevenção de crises e o uso racional de medicações antiepilépticas. O tratamento com medicações leva em conta, principalmente, o tipo de crise, efeitos colaterais das próprias medicações, gravidade das crises e comorbidades que o paciente possa apresentar.

O principal objetivo do tratamento é reduzir o número de crises, preferencialmente, extingui-las por período prolongado. Todas as medicações podem levar a efeitos colaterais que deverão ser discutidos com o médico e monitorados ao longo do tratamento. Os efeitos colaterais dependem da medicação em si e da sensibilidade do paciente. Por isso, há uma variação grande entre pessoas tomando o mesmo remédio. Efeitos colaterais comuns são: tontura, vermelhidão na pele, sonolência, aumento de apetite, queda de cabelo, alterações no fígado, crescimento da gengiva, entre outros. Normalmente os indivíduos com epilepsias mal controladas acabam desenvolvendo uma série de problemas neuropsiquiátricos, em particular, depressão, ansiedade e ideação suicida.

A prevenção primária da epilepsia ainda é difícil, mas um diagnóstico precoce e correto, com tratamento adequado, pode colocar o indivíduo em uma situação livre de crise por vários anos e proporcionar uma melhor qualidade de vida. Finalmente, ainda é preciso desmistificar a epilepsia e o que cerca este problema, disseminar informação correta e, sobretudo, apoiar o portador de epilepsia na sua inserção completa em nossa sociedade civil.

Transtornos do Sono – Entenda Mais

O sono é uma etapa crítica para o corpo entrar em vigília, mas muitas pessoas sofrem na hora de dormir. Imaginar um longo dia de trabalho pela frente sem conseguir dormir adequadamente à noite é um problema que afeta milhares de brasileiros todos os dias. Problemas de sono interferem de maneira significativa na qualidade de vida e estão entre as principais causas de baixa produtividade. Abaixo segue uma relação dos principais transtornos do sono.

Insônia

A insônia é sem dúvidas o principal transtorno de sono, interferindo de maneira significativa na qualidade de vida das pessoas acometidas e estão, certamente, entre as principais causas de baixa produtividade nas sociedades modernas.

Os problemas da insônia vão muito além de uma noite mal dormida. Outras questões podem ocorrer, por exemplo, lapsos de memória, falta de atenção, dores de cabeça, mau humor, desânimo, sonolência excessiva diurna, dificuldade para retenção de informações novas, queda de produtividade, entre outros.

De qualquer forma, talvez o maior problema da falta de sono à noite esteja durante o dia, ou seja, na sonolência excessiva diurna, com prejuízo funcional significativo para o indivíduo. E existem diversos fatores que podem contribuir para uma noite de insônia. Entre eles: estresse, preocupação, má alimentação, consumo de álcool e/ou café antes de dormir, excesso de peso, excesso de ruídos na rua ou na própria residência, entre outros.

Para minimizar os problemas causados pela insônia, medidas simples de higiene do sono devem ser seguidas:

  • criar uma rotina para dormir
  • controlar som, luz, temperatura, cama, travesseiro
  • evitar café ou bebidas com cafeína 4 a 6 horas antes de deitar
  • evitar exercícios físicos intensos antes de deitar
  • usar a cama apenas para dormir
  • procurar um médico quando as medidas comportamentais não estiverem funcionando

O tratamento da insônia geralmente consiste em avaliar as causas secundárias e, quando necessário, indutores do sono não-benzodiazepínicos, benzodiazepínicos e antidepressivos poderão ser utilizados, a critério do médico assistente.

Síndrome da apneia obstrutiva do sono

Dentre os vários distúrbios do sono, a síndrome da apneia obstrutiva é, sem dúvida, um dos mais comuns, acometendo principalmente os homens. Trata-se de um distúrbio obstrutivo do sono no qual há um aumento da resistência nas vias aéreas superiores que determina dificuldade à passagem de ar durante o sono, período em que há maior flacidez do arcabouço das vias respiratórias superiores. A consequência é a apneia (pausas respiratórias), ronco e falta de oxigênio transitória no sangue (hipoxemia).

Algo importante de se observer é que muitas vezes a “pista” para a apneia do sono não vem do ronco em si, principalmente se o indivíduo não tem um companheiro de cama. Nestes casos, é preciso ficar atento para outros sintomas como sonolência excessive diurnal, falta de concentração, mau humor e hipertensão arterial.

O que provoca o ronco é a flacidez durante o sono de algumas estruturas como palato mole e úvula, composição óssea da face, pescoço, boca e sua abertura que dificultam a passagem de ar, e aumento do tecido gorduroso visceral, principalmente no abdômen. Mas vale lembrar que nem todas as pessoas que roncam têm apneia. Há roncadores sem apneia, aqueles que têm somente resistência aumentada nas vias aéreas superiores à passagem de ar durante o sono. No entanto, estes indivíduos têm maior risco de desenvolver apneia.

O tratamento para a apneia consiste em perda de peso, cirurgias otorrinolaringologicas, uso de aparelhos intra-orais e o uso de máscaras com pressão contínua de oxigênio (CPAP). A cirurgia é indicada em situações específicas como crianças e adolescentes roncadores e com grandes adenoides/tonsilas, malformações crânio-faciais ou quando o tratamento com aparelho intra-oral ou CPAP não é tolerado ou não funciona.

Enfim, é preciso ficar atento com a apneia do sono e entender que suas consequências vão muito além de uma noite mal dormida.

Parassonias

O sono fisiológico é dividido em ciclos que se repetem ao longo da noite. Estes ciclos, por sua vez, são compostos de 2 fases, o sono não-REM e o sono REM. Assim, um indivíduo que dorme uma média de 7 a 8 horas por noite terá cerca de 5 ciclos do sono. As parassonias, alterações do comportamento que ocorrem durante o sono, são um problema relativamente comum, em particular na infância, como o sonambulismo, uma parassonia do sono não-REM. Por outro lado, também existem situações de parassonias em adultos, que se iniciam em geral após os 50 anos, e são conhecidas como parassonias do sono REM ou transtorno comportamental do sono REM, no qual a pessoa, é capaz de experimentar o conteúdo (normalmente violento) de seus sonhos.

Mais importante que tratar, estas parassonias precisam ser cuidadosamente diagnosticadas. Em geral, as parassonias do sono REM são benignas e autolimitadas, enquanto as parassonias do sono REM, como o transtorno comportamental do sono REM, podem albergar problemas neurológicos que irão se desenvolver no futuro.

Narcolepsia

A narcolepsia é uma das causas mais subdiagnosticadas de sonolência excessiva diurna, geralmente ocorre em adultos jovens e pode estar associada a outros sintomas como cataplexia, que é uma perda súbita do tônus muscular desencadeado por situações com forte conteúdo emocional; paralisia do sono, quando a pessoa acorda, mas percebe que está “presa” em seu próprio corpo, imobilizada por alguns instantes; alucinações hipnagógicas, quando o conteúdo dos sonhos parece invadir a vigília e confunde-se com a realidade.

A narcolepsia tem critérios diagnósticos bem estabelecidos e polissonografia com teste de múltiplas latências do sono são importantes. O tratamento auxilia muito e geralmente é feito com estimulantes do sistema nervoso central.

Síndrome das pernas inquietas

A síndrome das pernas inquietas, SPI, é um problema neurológico muito comum, porém, pouco reconhecido. Acomete de 5 a 10% da população. A denominação “pernas inquietas” decorre do fato de o indivíduo ter que movimentar as pernas para aliviar seus sintomas associado ao que chamamos de “movimentos periódicos dos membros” quando, neste caso, durante o sono e involuntariamente, ocorre também movimentação das pernas.

Os principais sintomas são: sensação de desconforto (dor, formigamento, ardor) nas pernas, do joelho para baixo, especialmente no final do dia ou que piora em períodos de repouso prolongado.

O diagnóstico da SPI deverá ser feito por um médico, uma vez que vários problemas podem confundir com isto. Devemos suspeitar de pessoas que reclamam de dor crônica nas duas pernas, ao final do dia, que melhora com movimentação e massagem. Outra pista são os movimentos periódicos dos membros, que ocorrem à noite, durante o sono, e são involuntários. Isto normalmente desarruma os lençóis/cobertores e pode ser percebido pelo parceiro(a) de cama.

Em relação ao tratamento, é necessário evitar alguns fatores que podem piorar a SPi por exemplo uso excessivo de cafeína. Existem, entretanto, algumas medicações que podem amenizar bastante os sintomas como remédios das seguintes classes: agonistas dopaminérgicos, anticonvulsivante e benzodiazepínico. Um médico familiarizado com SPI deverá sugerir a melhor opção ao paciente.

Acidente Vascular Cerebral – Como Evitar?

Todos conhecem alguém que teve um AVC. Mas o que poucas pessoas sabem é que parte das pessoas com AVC, na verdade, tiveram primeiro um AIT. Primeiramente, vamos definir para você leitor o que significam as siglas AIT e AVC.

Começarei pela sigla mais comum, ou seja, AVC, que significa Acidente Vascular Cerebral. Do ponto de vista prático, isto quer dizer que um indivíduo com AVC teve um déficit neurológico (motor, sensitivo, cerebelar, visual, linguagem, etc.) decorrente de uma isquemia (“entupimento” de uma artéria cerebral) ou hemorragia (“rompimento” de uma artéria cerebral) e este déficit durou obrigatoriamente mais de um dia (normalmente semanas ou meses), podendo ocorrer recuperação parcial, total e, em alguns casos, sem qualquer recuperação.

AIT, por outro lado, significa Ataque Isquêmico Transitório, ou seja, uma determinada artéria cerebral sofre um “entupimento”, ocorre um déficit neurológico, mas a grande diferença entre o AIT e o AVC é que o déficit neurológico no AIT, necessariamente, será reversível em até 24 horas (normalmente um tempo bem mais curto).

A grande questão sobre o AIT é que, embora estes indivíduos não ficarão com sequela, existe um risco enorme para que ocorra um AVC propriamente dito. Assim, AIT é um dos principais fatores de risco para o AVC.

E como evitar que um AIT vire um AVC?

Basicamente, o principal segredo estaria em evitar ambos, ou seja, controlar os principais fatores de risco modificáveis como hipertensão arterial, tabagismo, diabetes, dislipidemia e arritmias cardíacas. Isto é o que chamamos de prevenção primária e quer dizer que o indivíduo não teve nem um AIT e nem um AVC, mas poderá estar em risco.

Sobre o cigarro, cabe lembrar que mesmo o fumo passivo representa um risco importante de AVC.

A outra questão diz respeito aos indivíduos que já tiveram um AIT no passado. Estes precisam de uma investigação detalhada para verificarmos qual ou quais fatores de risco modificáveis estão presentes, tratá-los, incluindo uma pesquisa das artérias cerebrais e extracerebrais, além do coração, que poderão apresentar problemas passíveis de correção. Por exemplo, um paciente que teve um AIT do território da artéria carótida interna esquerda e será colocado um stent nesta artéria.

Em resumo, AIT é a ponta do iceberg para um AVC. Logo, qualquer déficit neurológico transitório, especialmente em indivíduos com fatores de risco cerebrovasculares, deverá ser investigado cuidadosamente, não se subestimando suas possíveis consequências.

Dor de Cabeça – Tipos e Tratamento

A dor de cabeça, chamada tecnicamente de cefaléia, é uma das queixas mais comuns da população, ocorrendo em algum momento da vida em 95% das pessoas. Existem várias causas de dor de cabeça, sendo algumas potencialmente graves como tumores, aneurisma, trombose cerebral e neuroinfecções.

A maioria das cefaléias, embora causem grande impacto na qualidade de vida das pessoas, não levam a quadros potencialmente fatais e podem ser efetivamente controladas com um tratamento adequado.

A estas cefaléias digamos, “benignas”, chamamos cefaléias primárias, àquelas, que são sintomas de uma lesão estrutural subjacente, chamamos de cefaléias secundárias. Como um neurologista faz para saber se uma cefaléia é primária ou secundária? O primeiro passo é determinar as características clínicas da dor.

Se houver algum sinal de alarme, precisamos proceder com uma investigação adicional que envolve um exame de imagem (tomografia ou ressonância magnética), análise do líquido cerebro-espinhal, entre outros exames. Nos casos em que não existe nenhum sinal de alarme, naqueles cuja investigação foi negativa e nos pacientes com longa história de dor e períodos assintomáticos entre as crises, pensamos na possibilidade de uma cefaléia primária, cujas causas mais frequentemente encontradas na população são a cefaléia tensional e a migrânea, também conhecida como enxaqueca.

A cefaléia tensional leva a uma dor leve a moderada, que tende a acometer toda a cabeça, cuja causa se relaciona a um excesso de tensão muscular na região da cabeça e do pescoço. Por isso tende a ser mais frequente no final da tarde e nos períodos de maior estresse.

A migrânea (ou enxaqueca) é uma doença genética, influenciada por fatores hormonais, mais comum em mulheres (40% versus 20% dos homens), mais frequente na idade fértil e com piora sintomática no período pré-menstrual. Tipicamente as dores são de forte intensidade, caráter pulsátil ou latejante, associadas a náuseas ou vômitos e que pioram muito com o exercício físico, luz, odores e barulho. As crises tendem a durar várias horas e tendem a ser recorrentes.

O tratamento das cefaléias primárias pode ser dividido em: 1- Mudança no estilo de vida, evitando fatores desencadeantes como alguns tipos de alimentos, álcool, estresse e jejum prolongado. 2- Tratamento das crises, o qual geralmente é feito com analgésicos, anti-inflamatórios ou medicações específicas como os ergotamínicos e, mais recentemente, os triptanos. 3- Nos pacientes com mais de 2 a 4 crises no mês, ou naqueles em que as crises são importantes a ponto do paciente precisar de medicação endovenosa, optamos pelo uso de medicações preventivas, ou seja, remédios de uso diário, por um período não inferior a 6 meses, com o objetivo de reduzir a frequencia e a intensidade de crises a longo prazo. Considero que tais medicações foram o maior avanço no tratamento da migrânea nos últimos anos, sendo que a grande maioria dos pacientes apresenta benefício acentuado com essa medidas. 4- Casos refratários: em alguns casos, pode ser necessária uma abordagem multidisciplinar, que envolva o tratamento médico com medicações preventivas, suporte psicológico, reabilitação postural, acompanhamento odontológico e um programa de exercícios físicos regulares. 5- Mais recentemente, estudos tem indicado que o uso de injeções de toxina botulínica no segmento cefálico pode ser benéfico nestes casos.

Em conclusão, um paciente com cefaléia que apresente sofrimento com o seu quadro deve procurar atendimento médico, para que possa ser adequadamente diagnosticado e assim receber o tratamento mais eficaz para a sua condição.

Perguntas e Respostas Sobre a Doença de Parkinson

1. O que causa a Doença de Parkinson?

R.: Não se sabe exatamente qual a causa da Doença de Parkinson. Em cerca de 5% dos pacientes é possível identificar uma anormalidade genética que se relaciona com a doença, mas no restante dos pacientes isso não ocorre. Admite-se, hipoteticamente, que a origem desta doença se deva a uma predisposição genética associada a desencadeantes ambientais.

2. Mas o que ocorre no cérebro dos pacientes com Doença de Parkinson?

R.: Ocorre uma perda progressiva de neurônios em várias partes do cérebro, principalmente numa região conhecida como substância negra, cujos neurônios são responsáveis pela produção de um neurotransmissor conhecido como dopamina.

3. E esta perda de neurônios leva a quais manifestações?

R.: Clinicamente, surge uma lentidão para movimentar-se, associada a tremores que ocorrem principalmente quando o membro está relaxado e um aumento do tônus muscular. Tal quadro tende a ser assimétrico, ou seja, pior em um lado do que no outro. Um ponto a ser lembrado é que nem todos os pacientes com Doença de Parkinson vão apresentar tremor.

4. Há algum exame que faça o diagnóstico da Doença de Parkinson?

R.: A despeito de isto ser algo que os pesquisadores sempre procuram, ainda não existe um exame que seja capaz de determinar com certeza se o paciente tem ou não a doença. Por isso dizemos que o diagnóstico é clínico, ou seja, o médico avalia o paciente e verifica se ele preenche determinados critérios para o diagnóstico.

5. Como é o tratamento da Doença de Parkinson?

R.: Basicamente, o tratamento é feito com medicações que repõem ou substituem a dopamina perdida com a morte dos neurônios. Existem várias medicações diferentes e cada droga é empregada para um perfil específico de paciente. Mais recentemente, o casos mais graves tem sido tratados com a implantação de um marcapasso cerebral, o qual, de acordo com inúmeros estudos, tem se mostrado tão ou mais eficaz que o tratamento medicamentoso nestes pacientes.

Doença de Alzheimer – Principais Dúvidas

A Doença de Alzheimer (DA) é a doença neurodegenerativa mais comum da atualidade. Com uma prevalência que aumenta gradualmente a partir dos 60 anos, chega a acometer 20% da população após os 85 anos de idade. Veja abaixo as principais dúvidas sobre a DA:

1. Quais são os principais sintomas da DA?

R.: O principal sintoma inicial da DA é a perda de memória, que tipicamente afeta a memória recente, ou seja, o paciente com DA inicial mantém vividas as lembraças antigas de sua vida, mas muitas vezes é incapaz de se lembrar do que comeu ontem. Com o evoluir da doença, outros sintomas aparecem, como pobreza do vocabulário, dificuldade de localização e dificuldade de resolver problemas ou lidar com situações que anteriormente seria capaz de realizar sem dificuldade. Em fases mais avançadas podem surgir distúrbios do comportamento, alucinações e em fases terminais acontecem alterações motoras, como incapacidade para andar ou engolir.

2. Como é feito o diagnóstico da doença de Alzheimer?

R.: O diagnóstico definitivo só poderia ser realizado com uma biópsia cerebral, o que é impraticável na prática clínica. Portanto o clínico consegue estabelecer um diagnóstico de probabilidade baseando-se no perfil de perda cognitiva (perda principalmente em memória recente), com achados típicos em exames de neuroimagem, como a atrofia da região hipocampal. Recentemente tem surgido formas promissoras para ampliar o poder diagnóstico na DA, como exames no líquido cerebro-espinhal (dosagem do peptídeo beta- amilóide e da proteína tau fosforilada) ou através da tomografia por emissão de pósitrons (PIB-PET).

3. Como é feito o tratamento da DA? Existe alguma forma de paralisar ou regredir a evolução da doença?

R.: Inicialmente é preciso deixar claro que não existe nenhuma forma de paralisar a evolução da doença e todas as medicações disponíveis na atualidade apenas melhoram temporariamente os sintomas da doença. Existem dois grupos de medicações indicadas especificamente para o tratamento da DA. As drogas que aumentam a disponibilidade de acetilcolina no cérebro (drogas anticolinesterásicas – rivastigmina, donepezila e galantamina), indicadas para fases leve e moderada da doença e a memantina, droga com efeito anti-glutamatérgico, indicada para fases avançadas da doença. É muito importante salientar que, além destas medicações, drogas antidepressivas, ansiolíticas e antipsicóticas podem ser utilizadas no manejo de alterações comportamentais, alucinação e insônia, sintomas frequentes e que frequentemente causam grandes problemas ao paciente e cuidadores.

4. Existe algo que pode ser feito para se reduzir o risco de desenvolver a DA?

R.:Vários estudos nos últimos anos têm sugerido que a redução de fatores de risco cardiovasculares poderia reduzir o risco de se desenvolver a DA. Desta forma, o controle da pressão arterial, da diabetes, do níveis de colesterol, a realização de atividade física regular são boas medidas para redução do risco de DA. Acredita-se também que pode ser positiva a opção por uma dieta “mediterrânea”, com ingestão de vinho em baixa quantidade frequentemente, azeite no lugar do óleo vegetal, queijos brancos substituindo os mais amarelados e trocando a carne vermelha por peixe. Adicionalmente, vários estudos demonstram que pacientes com maior escolaridade estão mais protegidos, assim é importante manter a mente ativa e atualizada com leitura de livros, jornais e revistas, realização de palavras cruzadas, sudoku e atividades afins.